Bom Dia - O Diário do Médio Piracicaba

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19/08/2014 09h01

Las Lobas Ciendientes - P3

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Como um grupo de velhinhas, que supostamente queriam apenas viajar pela Grécia, se transformou numa milícia das mais aterrorizantes do mundo?Até hoje não consegui compreender tal aberração, apenas vivi os malditos momentos dessa metamorfose.

Relato o dia em que descobri que meu destino foi selado. O bafo escaldante emanado da garganta de Leviatã fazia o suor escorrer pelas minhas costas. Com a camisa ensopada, meus odores tomaram conta do táxi, que também levava Dona Cissa, Dona Léia e Dona Clô. Rumávamos para a Acrópole, ponto manjado do “turisteio” geriátrico. As outras velhinhas seguiram na van disponibilizado pelo pacote. Porém, as três senhoras que viriam a se tornar generais estrelados de maldade comparada à de Rommel, a raposa do deserto de Hitler, exigiram tratamento diferenciado.

Óbvio que fui totalmente contrário à ideia, visto que o gasto com transporte já estava calculado e fechado. Deslocamentos por táxi alterariam a contabilidade, fato que faria com que meus superiores introduzissem suas maldades em minha intimidade. Disse não, não e não. De nada adiantou.

Dona Clô aproximou-se e sussurrou em meu ouvido:

- Escute menino, eu e minhas companheiras não andamos em vans. São vários os traumas que carregamos. Dona Cissa, em pleno frescor juvenil, foi violentada dentro de um veículo assim. Dona Léia perdeu seu marido, um motorista de van, num acidente automobilístico. Já eu, não gosto de vans porque acho que este é um meio de transporte não compatível com minha classe. Então, trate logo de nos atender e providenciar um táxi, antes que todas nós desistamos dessa porcaria e rumemos de volta, sem completar o pagamento do pacote. Você não gostaria disso, não é? Imagine seus chefes…

- Mas Dona Clô, não posso fazer isso, não tenho autorização para atender tal demanda, não há como.

- Cale-se garoto e mova-se. Queremos chegar à Acrópole com o sol ainda vivo.

Tentei manter o diálogo, mas fui interrompido por uma tamancada no ouvido desferido pro Dona Clô, nada muito forte, mas um gesto que me assustou.

Apesar deste contratempo, a desconfiança até então não havia nascido, pensei se tratar apenas de caprichos da terceira idade. Porém, naquela tarde viria a descobrir o porquê daquele táxi e quão importante ele seria para a execução do plano brutal e maligno que ali se desenrolava.

Ao descermos na Acrópole, o grupo de 30 velhinhas novamente formou um só corpo. Comecei a perceber que as três senhoras que exigiram o táxi exerciam uma liderança sobre as demais. Faziam pedidos exagerados, como quantidades cavalares de tiropites acompanhados por loukomades, e eram atendidas prontamente. Exigiam que seus calcanhares fossem lixados em plena praça pública e sem demora uma velhinha se curvava e executava a tarefa. Aquilo começava a cheirar tão esquisito quanto o Ribeirão Arrudas.

A barbárie plena principiou com o vendedor de pita sendo espancado ferozmente por 15 idosas. O pobre malandro tentou voltar um troco manco para Dona Léia. Um olhar, um comando, uma execução. O que era aquilo? 

Naquele momento as Lobas se despiram das anáguas e se cobriram com panos grossos e camuflados. O ataque havia começado sem qualquer cerimônia. Atônito, tentei questionar Dona Clô o que estava acontecendo. Calmamente, ela se virou para mim e sentenciou:

- Nada que você possa interromper. Aliás, acostume-se, você já faz parte do nosso espólio de guerra. Sua alma é nossa.

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