Bom Dia - O Diário do Médio Piracicaba

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05/08/2014 10h14

Lusco Fusco - Las Lobas Ciendientes - P2

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Aniversariar nos braços da selva não é o tipo de comemoração mais recomendável. Quando mais em meio à ira de dezenas de velhinhas loucas. Meu olho esquerdo continua inchado e fechado e de nada adiantam durante as intermináveis e horríveis caminhadas no seio da floresta. Logo pela manhã, Dona Léia veio em minha direção com a mão estendida. Pensando se tratar de um cumprimento, ofereci um sorriso. Recebi de volta uma pancada seca no alto da cabeça, um golpe que me deixou grogue por alguns minutos. Não há piedade na alma dessas senhoras. 

 

Permitam-me elucidar de forma concisa a trajetória das Lobas. Na verdade, todas eram velhinhas simpáticas que enchiam a mesa com gostosas quitandas, biscoitos, sucos e queijos, além de serem provedoras de almoço farto e saboroso, encorpado pelo sabor de antigamente. Todas eram avós, exceto Dona Bete, que perdeu o útero ainda jovem, complicação decorrente da ingestão de veneno de rato. Ela estava apaixonada por alguém que buscava apenas uma cova quente. Decepcionada, resolveu encurtar de forma desastrada a permanência na Terra.

 

Em certo dia de junho,Dona Clô decidiu organizar uma excursão para a Grécia. Velhinhas gostam de excursionar pela terra das divindades mitológicas. Conheço várias que já tocaram o chão da Acrópole de Atenas, do Templo de Zeus e do Monte Licabeto. Não sei o que as atraem tanto. Certa vez tentei pedir uma explicação ao Sandro, profundo conhecedor das mulheres amadurecidas, mas nem ele dominava esse mistério.

Dona Clô fechou um pacote com uma agência de viagens e pôs-se a telefonar para as companheiras de buraco, convocando-as para o passeio. “Todas vocês irão adorar o Mediterrâneo. É uma região que revitaliza os ossos”, argumentava a então boa senhora. Apenas cinco declinaram, e pagaram um preço alto por isso. Em outra oportunidade digo o que aconteceu.

Então, lá se foram todas as 30 velhinhas, felizes, confiantes, exaltadas. Estavam na verdade gozando de novo, depois de anos e anos. Algumas nunca tinham sentindo um verdadeiro prazer carnal, mas agora se viam realizadas sentadas nas poltronas do avião da Lufthansa rumo à Grécia.

Faltava apenas uma hora para que tocassem o solo de Apolo. Algumas das senhoras já haviam esgotado o estoque de cruzadinhas, uma vez que o tricô é proibido durante o voo. Agulhas nunca são bem vindas em ambientes pressurizados a 11 mil metros de altura. Outras se distraíam jogando cartas e chupando pastilhas Valda, pois o pigarro decorrente de anos de cigarro é algo deveras inconveniente.

Dona Cissa já mostrava a fúria que guardava no meio dos peitos caídos. Simplesmente pelo fato de não ter conseguido um copo com água de Israel, que se prestaria a armazenar sua dentadura, vociferou impropérios em direção à tripulação do avião, chegando inclusive a amaldiçoar a aeromoça que exalava uma simpatia de porcelana."Tomara que sua hemorroida estoure", praguejou Dona Cissa. Todos no avião se recostaram por precaução. O prenúncio do que viria acabava de ser revelado, mas ninguém conseguiu detectar o perigo imediatamente.

Como sei de tudo isso? É simples, eu era um dos responsáveis pela excursão, trabalhava na agência de viagens. Fazia apenas um mês que lá estava e mal sabia que atravessaria meu primeiro roteiro de mãos dadas com o diabo.

Continua...

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