Bom Dia - O Diário do Médio Piracicaba

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09/01/2026 07h23

PUTA MOVIMENTO

Entrevista com a antropóloga Débora Barcellos

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O “PENSANDO +” nasce como um espaço para reflexão crítica, escuta qualificada e diálogo com ideias, através de matérias e entrevistas com pessoas que pensam e agem diferente. Um blog e coluna que se propõe a pensar a cultura, as pessoas e as disputas simbólicas que atravessam a sociedade contemporânea.

Para inaugurar este espaço, conversamos com Débora Barcellos, escritora e antropóloga, professora na Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), nascida em João Monlevade e com trajetória acadêmica e ativista dedicada à escuta e as causas das trabalhadoras do sexo.

Débora lança agora o livro “PUTA-MOVIMENTO: uma homenagem”, obra que resulta de anos de aproximação com movimentos sociais das trabalhadoras do sexo e de uma pesquisa marcada pelo respeito, pela seriedade analítica e pelo compromisso político com sujeitos historicamente silenciados.

 

Nesta entrevista, conversamos sobre antropologia, linguagem, moralidade, mercado sexual, transformações tecnológicas, conservadorismo e, sobretudo, sobre o corpo como território político. Uma conversa que pode incomodar — e por isso mesmo, necessária.

Convido vocês a ler até o final, pois vale a pena...

Pensando + : Como surgiu o seu interesse pela antropologia? Houve algum episódio, leitura ou experiência pessoal que despertou esse olhar para o estudo das culturas e das relações sociais?

Débora Barcellos : Em 2014, quando eu havia acabado de me mudar para Diamantina, voltei a estudar. Ingressei no Bacharelado em Humanidades, na UFVJM e me encantei pelas aulas de Introdução à Antropologia. O professor da disciplina, André Borges, orientou minha iniciação científica e meu trabalho de conclusão de curso da graduação, de modo que tive um contato mais intenso com autoras e autores da Antropologia. Na ocasião, comecei a forjar um olhar mais antropológico sobre o mundo, pesquisando junto a trabalhadoras da coleta de material reciclável.

Pensando + : E quando a temática das trabalhadoras do sexo entrou no seu horizonte de pesquisa? Foi uma escolha acadêmica planejada ou um caminho que se impôs a partir de vivências?

Débora Barcellos :Essa temática entre na cena no mestrado em Ciências Humanas, também na UFVJM. Em meus trânsitos por Diamantina, identifiquei que havia um silenciamento de memórias de mulheres que atuavam como prostitutas, quando retratados alguns marcos temporais e lugares históricos conectados ao meretrício no século passado. Decidi, então, perseguir algumas histórias particulares que pudessem dimensionar aquelas existências. Bem antes desse processo, desde muito nova eu sempre me sentia incomodada com a maneira como a sociedade, de forma generalizada, utiliza “o lugar” ou “o papel” da puta para controlar todas as mulheres. Um exemplo de como isso funciona é a classificação de mulheres a partir de oposições, como boas/más, para casar/“para comer”, honestas/desonestas, puras/impuras, santas/pecadoras e por aí vai... tais classificações polarizam expectativas quanto a condutas, comportamentos, ideias, escolhas etc., além de produzir estereótipos como o de mulher “bela, recatada e do lar” e “esposa troféu”. Como consequência, modos de existir que se distanciam desses ideais socialmente produzidos, colocam mulheres sob o risco de serem qualificadas por termos considerados pejorativos, a exemplo de “puta”. Comigo, isso já deixou de funcionar há muito tempo...rs. Por fim, o que aconteceu para que eu me aventurasse pelo tema foi a conjunção de lugares por onde caminhei e questões sociais que já me incomodavam.

Pensando + : No livro “PUTA-MOVIMENTO: uma homenagem”, você narra sua aproximação com o movimento social de trabalhadoras do sexo. Na sua avaliação, esse movimento produziu conquistas reais e avanços concretos ao longo do tempo?

Débora Barcellos :Em espaços de lutas muito árduas, qualquer conquista, por menor que seja, deve ser celebrada. O movimento das trabalhadoras sexuais brasileiras começa a se organizar junto de outros movimentos que surgiram ou se fortaleceram ali pelos fins da ditatura civil-militar. Talvez com muito mais dificuldade e visibilidade infinitamente menor do que os outros, por motivos óbvios – o trabalho sexual, ou a prostituição, como queiram chamar, é um assunto interditado, um tabu em nossa sociedade. Mas levando em conta mais de 40 anos desde o início dessa articulação, há pontos importantes a serem destacados. Desde a epidemia mundial de HIV-Aids, trabalhadoras sexuais possuem um papel importantíssimo de atuação junto ao Ministério da Saúde e, também, nos territórios. Levando em consideração que a saúde sexual é indispensável à segurança e à prática do trabalho que exercem, é válido evidenciar que quem atua no mercado sexual costuma levar bastante a sério a prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis. Outra conquista importante foi a incorporação das/dos profissionais do sexo na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho e Emprego, no ano de 2002. Isso confere a quem atua no ramo o direito de participar da seguridade social, por meio do recolhimento mensal como autônomo e, assim, acessar alguns direitos, da mesma forma que outras classes trabalhadoras. Tudo se deu com ampla participação de figuras importantes do movimento das trabalhadoras sexuais, como Gabriela Leite (que faleceu em 2013), Lourdes Barreto (PA) e Fátima Medeiros (BA). Cabe esclarecer que a existência do direito assegurado não significa que as pessoas o acessem. Em função do estigma e do preconceito, há muitas questões importantes e desafiadoras que permeiam essa categoria laboral. Muita gente que atua no mercado sexual sequer sabe da existência desse direito. Outras tantas pessoas trabalham de maneira sigilosa, fora de seus locais de origem e sem o conhecimento de familiares e pessoas próximas, fazendo com que se declarar como profissional do sexo diante de uma instância do Estado não seja algo tão simples.

Ainda assim, atualmente, muitas trabalhadoras sexuais que lidam bem com a exposição se articulam para além dos interesses específicos da categoria, participando ativamente de órgãos e conselhos, municipais, estaduais e federais ligados ao campo da saúde, da cultura, da segurança pública, da promoção de direitos das mulheres. Um exemplo... em 2025 foram eleitas duas representantes para a Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. Sim!... Temos trabalhadoras sexuais idosas que seguem atuando – politicamente e no mercado sexual.

Pensando + : A palavra PUTA ocupa um lugar central no seu trabalho. Em uma sociedade conservadora, ela costuma funcionar como um rótulo de degradação moral do corpo feminino. Por outro lado, há tentativas de suavização da linguagem, com termos como “job”, por exemplo. Estaríamos evoluindo para uma maior aceitação?

Débora Barcellos : Bem... essa forma de classificação, “job”, é bem contemporânea e tem sido muito utilizada por pessoas mais jovens. Na verdade, há várias formas de autorreferenciamento. Há, também, movimentos constantes e fluidos de terminologias distintas, como “modelo” ou “acompanhante”, geralmente utilizadas para tentar escapar do estigma. Mas gosto de replicar algo que ouvi de uma interlocutora, uns anos atrás: "para a sociedade, é tudo puta!". O termo “job” não circula muito em puteiros, cabarés. Menos ainda entre as mulheres mais velhas. E por mais que a tradução de job seja trabalho, acaba sendo mais praticamente uma atualização daquele velho ditado que diz que a prostituição é o "trabalho mais antigo do mundo". Isso nunca teve nada a ver com a legitimação social da atividade. Há muita resistência não apenas quanto a legitimar o trabalho sexual como trabalho, mas, também, em olhar para as pessoas que atuam nesse ramo para além dos moralismos, achismos e preconceitos. Profissionais do sexo são pessoas. Pessoas que sonham, que lutam, que têm família, que amam e que são amadas, que pagam impostos, que circulam entre nós, que experimentam as dores e as delícias de existir. Talvez, pessoas que jamais imaginaríamos ou jamais saberemos que se aventuram ou já se aventuraram pelo mercado sexual.

Pensando + : A partir da sua convivência e escuta das profissionais do sexo, que conclusões você tira sobre as motivações para permanecer no trabalho sexual? Trata-se apenas de necessidade econômica ou existe também escolha, vocação, especialização, domínio técnico do prazer — assim como em outras profissões do cuidado e do corpo?

Débora Barcellos :Apesar de meus interesses de pesquisa não serem, necessariamente, as questões intrínsecas ao exercício do trabalho sexual, e de minha produção acadêmica não abordar tais detalhes, ao longo de quase 10 anos de pesquisa nesse campo é possível observar algumas perspectivas, sem necessariamente trata-las como conclusões. É comum que a flexibilidade de horários e os ganhos superiores a trabalhos com carteira assinada sejam mencionados como “motivo” da permanência. Do ponto de vista da necessidade econômica, penso que se trata de algo intrínseco ao sistema econômico capitalista. Quem não é milionário ou herdeiro precisa trabalhar para levar o pão para casa, não é mesmo? Mas o elemento moral atua muito quando o trabalho em questão é o trabalho sexual. Vivemos numa sociedade em que o livre exercício da sexualidade não é encorajado, além de ser considerado por muitas pessoas como pecado. Já pensando na dimensão estritamente econômica, gosto muito da perspectiva da filósofa Silvia Federici, que afirma que o trabalho sexual é apenas mais um trabalho precário no capitalismo, dentre muitos outros. Há, também, uma frase de Gabriela Leite que é muito instigante: “Qualquer profissional usa uma parte do seu corpo para trabalhar”. Qual parte você usa? Quero ressaltar que não se trata de romantizar o trabalho sexual. Não é um trabalho como outro qualquer, principalmente porque o preconceito atua de forma muito cruel sobre quem o exerce. Sempre tem uma mão estendida e segurando uma pedra pronta para ser atirada em Genis e em Marias Madelenas. E arrisco dizer que talvez isso seja o que há de pior no trabalho sexual: a maldade que vem dos outros, o ódio gratuito que desumaniza.

A respeito da vocação, domínio técnico, especialização, há uma gama de trabalhos possíveis dentro do mercado sexual. Desde atendimentos virtuais e venda de conteúdos audiovisuais, até a troca sexual presencial, propriamente dita – sempre mediadas por trocas econômicas. Como em toda prestação de serviço, o que cativa o cliente é a qualidade do que é oferecido. As trabalhadoras investem sim na competência técnica, se especializam na arte de proporcionar prazer, principalmente por meio da prática. Algumas trabalhadoras sexuais com quem pesquiso também entendem sua atuação como trabalho de cuidado. A troca sexual em si pode ser vista do âmbito do cuidado mas, além disso, há clientes que demandam também escuta ativa, conselhos ou a mera companhia. Outro aspecto interessante é que pessoas com deficiências diversas, físicas e intelectuais, também são parte do público atendido. Uma vez que a sexualidade desse grupo em específico também é um tabu social, o debate acaba adentrando por outros caminhos, bastante sensíveis, a propósito. Tudo isso reforça a ideia de que o trabalho sexual tem, sim, uma dimensão que pode conectá-lo com o cuidado.

Pensando + :Uma curiosidade conceitual: você utiliza majoritariamente os termos no feminino. Como ficam os profissionais do sexo masculinos e outras identidades de gênero dentro desse mercado e dentro da pesquisa antropológica?

Débora Barcellos : Trata-se de uma escolha política esse uso dos termos no feminino. E que está para além do fato de que minhas interlocutoras se identificam como mulheres, sejam elas cis ou trans. Assim como se pressupõe que as mulheres devam se sentir sempre contempladas em qualquer texto ou discurso que generalizam todas as pessoas sob termos masculinos, minha ideia é me valer do contrário, num jogo de linguagem que não tem a pretensão de desafiar ninguém. Isso não é uma prática tão incomum nas Ciências Sociais, especialmente na Antropologia. E não se trata de exclusão, mas de incluir de uma forma diferente. Espero que pessoas pertencentes a identidades de gênero que não a feminina se sintam plenamente incluídas e contempladas pela minha escrita.

Pensando + : Em um de seus trabalhos anteriores, você pesquisou o Beco do Mota, em Diamantina — espaço histórico da boemia mineira. Durante décadas, cidades inteiras conviveram com zonas de prostituição institucionalizadas, muitas vezes toleradas silenciosamente pela moral dominante. Eram as boates azuis ou casas da luz vermelha. Hoje, com celular, redes sociais e Pix, esse cenário mudou radicalmente. As casas de prostituição tendem a desaparecer?

Débora Barcellos : Acredito que não. Além de haver mercado para todo tipo de serviço prestado nesse universo – seja no formato virtual ou presencial – os cabarés, zonas, boates preservam uma atmosfera própria, que atrai.

Pensando + : Do ponto de vista social e moral, você acredita que a hipocrisia em torno da prostituição diminuiu? Será que um dia o trabalho sexual vai ser reconhecido como a fisioterapia por exemplo?

Débora Barcellos : Não penso que tenha diminuído. E nem creio que vá diminuir. Vivemos um momento mundial de ascensão do conservadorismo. Conservadorismo e hipocrisia sempre andaram de mãos dadas ao longo da história. Quanto ao trabalho sexual ser reconhecido como um trabalho possível no campo da saúde, isso acontece de forma tímida em alguns países. Na China e na França, por exemplo, há associações autônomas que conectam profissionais do sexo a pessoas com deficiência, com a intenção de promover e garantir os direitos sexuais dessas pessoas. Para quem não sabe, o exercício da sexualidade é um direito humano fundamental. Talvez não seja uma realidade tão distante assim, quando pensamos para além da realidade brasileira, claro.

Pensando + : Para quem deseja aprofundar os temas abordados no seu livro, que leituras você indicaria — acadêmicas ou literárias?

Débora Barcellos : Eu já li tanta coisa boa, de tanta gente boa... vamos lá! Apenas algumas. Tenho muitas, muitas outras. Vou me ater aos livros! E aqui estão mescladas obras acadêmicas, literárias e escritas autobiográficas de trabalhadoras sexuais. “Putafeminista”, de Monique Prada. “Puta história”, de Fátima Medeiros. “Puta autobiografia”, de Lourdes Barreto. “Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta”, de Gabriela Leite. “Puta tem família”, de Thaís Helena Leite. “Calibã e a bruxa”, de Silvia Federici. “Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquistas – Brasil (1890-193)”, de Margareth Rago. “Cabaré”, de Natânia Lopes. “Tudo é rio”, de Carla Madeira. “Hilda Furacão”, de Roberto Drummond. “Meretrizes e doutores: saber médico e prostituição no Rio de Janeiro (1840-1890)”, de Magali Engel. “A família da prostituta”, de Jeferson Bacelar.

Pensando + : Como adquirir o livro PUTA-MOVIMENTO: uma homenagem? E quem quiser acessar seu trabalho anterior sobre o Beco do Mota, há links ou canais disponíveis?

Débora Barcellos : O “Puta-movimento: uma homenagem” teve uma primeira tiragem que tenho chamado de intimista, com quase todos os exemplares destinados a presentear lideranças de associações e coletivos de trabalhadoras sexuais de vários lugares do Brasil. Foi publicado pela Ofícios Terrestres Edições e acredito que logo em breve estará disponível no site da editora, que também é responsável pelo meu livro anterior, “Memórias do Beco: maternidade e prostituição” – fruto da dissertação de meu mestrado em Ciências Humanas.

Mas para além dos livros, minha produção acadêmica é de domínio púbico – um compromisso ético e social, uma vez que minha trajetória de pesquisa se construiu em universidades públicas. A dissertação do mestrado, intitulada “Memória marginais do Beco do Mota: mulheres e crianças no cenário da prostituição”, está disponível no repositório da UFVJM. Em breve, a tese de meu doutorado em Antropologia, defendida em novembro de 2025 e intitulada “Não somos sozinhas no mundo! Temos filhos, temos família! – maternidades e feituras de família entre trabalhadoras sexuais” estará disponível no repositório da Universidade de Brasília.

Pensando + : Seu trabalho é, ao mesmo tempo, acadêmico e político. Existe espaço na universidade para pesquisas que assumem claramente um posicionamento ético e militante?

Débora Barcellos : Eu não acredito em neutralidade científica. Nem mesmo na área das Exatas. Há sempre fatores mobilizadores para se pesquisar ou se discutir sobre isso ou aquilo. No caso da Antropologia, o corpo de quem pesquisa adentra aos territórios. Nos valemos da etnografia que, grosso modo, é um registro descritivo de grupos sociais. O trabalho etnográfico possui um comprometimento político intrínseco, uma vez que é realizado junto, entre as pessoas com quem pesquisamos. Os processos de construção da pesquisa são intersubjetivos, dialógicos. Tecemos relações. Essa forma de produção científica não se dissocia das perspectivas encontradas em campo e nem das pessoas. Afinal, se a produção acadêmica tem sua função social, o posicionamento não solapa a ética. Nesse sentido, ao invés de militante, acredito que o meu fazer antropológico pode ser classificado como engajado, uma vez que conjuga posicionamento, compromisso político e rigor científico.

Pensando + : O que mais te atravessou emocionalmente durante essa trajetória de pesquisa? 

Débora Barcellos : Eu ouvi da banca de defesa de doutorado que meu trabalho é um trabalho de escuta. Então, acredito que eu consegui realizar com êxito esta tarefa. E exatamente por isso eu construí muitos laços e vínculos que permanecem, ainda que os momentos de pesquisa se encerrem. Isso foi o que mais me atravessou e atravessa emocionalmente: eu parei para ouvir, mas também fui ouvida, acolhi e fui acolhida, partilhei afetos, sorri e chorei junto de muitas pessoas. Talvez aqueles versos dos Novos Baianos possam traduzir um pouco esses atravessamentos todos: “Vou mostrando como sou e vou sendo como posso. Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos. E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto...”. Encerro agradecendo o espaço para esse tema tão sensível, difícil de ser abordado e que provoca desconfortos em quase todas as pessoas. E quero reforçar todo meu respeito às pessoas trabalhadoras sexuais.

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