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06/03/2020 08h24

Candeeiro: A Geleia Geral de Torquato

A Geleia Geral de Torquato

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O jornalista, poeta, letrista e ativista cultural piauiense Torquato Neto (1944/1972), ícone da contracultura na década de 1960 e um dos mentores do movimento cultural denominado de Tropicália, afirmava aos amigos mais íntimos, entre eles Caetano Veloso, Gilberto Gil e Hélio Oiticica, que todo artista tinha seu “período fértil” já datado, determinado, com começo, meio e fim e que nenhum deles produzia arte de qualidade até o fim da vida. 
Quando ouvi essa sentença em um documentário sobre Torquato, permeada pela atmosfera melancólica que era peculiar ao artista e que o levou ao suicídio no Rio de Janeiro, já que ele dizia isso aos seus interlocutores para defender que temos o nosso “tempo útil’ na Terra e depois disso temos é que dar no pé, algo típico de sua auto crueldade ferina, parei para pensar que, de fato, nem tudo se valia apenas de sua acidez com a vida. Realmente, são raros os artistas que produzem com qualidade até o fim de sua existência. Claro, não é necessário se matar por isso. 
Lembrei-me de poucos que o fizeram, sem contar com a ajuda de minha memória fraca e, sendo assim, por vezes injusta. Veio à mente Jorge Amado, Ariano Suassuna, Patativa do Assaré, Tom Jobim, Saramago, entre outros. Mas o universo dos que perderam um pouco de sua essência artística ao longo dos anos é bem maior. 
Aproveito para trazer o assunto para nossa João Monlevade e sugerir que algumas de nossas vozes artísticas voltem a dar o tom de seus talentos, que, com certeza, ainda têm muito que surtir. E provoco: que bom seriam novas composições do mestre Chico Franco, inéditas crônicas cotidianas do também poeta João Carlos Guimarães, aventuras insólitas da impagável cobra Sneika, do imperdível Magela, entre outras expressões que contestassem a máxima de Torquato e, além disso, provariam que entre nossas montanhas e vales a qualidade é perene. 
É bom lembrar que Neto também se aventurou como ator em produções de qualidade duvidosa e escreveu artigos sobre cultura em vários jornais de renome. Assinou, por um bom tempo, a badalada coluna Geleia Geral, no jornal carioca Última Hora. Produziu bem, enquanto pode. 
É, a geleia geral de Torquato nos ajudou a pensar e refletir, e provocar. Ela acendeu muitos candeeiros por aí.

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