Bom Dia - O Diário do Médio Piracicaba

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23/03/2018 06h51

Medio Pira entrevista Claira Ferreira

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Entrevista com Claira Ferreira

Claira Ferreira é graduada em Jornalismo pela FUNCEC e cursa licenciatura em Letras e Literaturas pela UNINTER. Hoje comanda a Fundação Casa de Cultura de João Monlevade. Durante um bom tempo foi responsável pela comunicação nas gestões dos ex-prefeitos Carlos Moreira e Teófilo Torres, mas, há 4 anos dedica-se exclusivamente à Cultura. Ela é casada e tem duas filhas.

MEDIOPIRA - Uma pergunta que eu sempre faço à quase todos: qual era o seu sonho de infância? Já sonhava em ser jornalista?

Sempre pensava na área de humanas, mas não no jornalismo. Já desejei direito, algumas licenciaturas, Publicidade e Propaganda. Por uma questão de oportunidade, quando a FUNCEC abriu o curso de Jornalismo decidi cursá-lo (sou da primeira turma) e, após, complementar os estudos para a formação em Publicidade e Propaganda. Acabei me apaixonando pelo Jornalismo.

MEDIOPIRA - Tinha alguma inclinação artística?

Tenho algumas habilidades... Gosto de trabalhos manuais, artesanato, já me arrisquei no violão (hoje não toco nada), mas tenho uma sensibilidade aguçada para a área.

MEDIOPIRA - Que tipo de músicas ouvia em sua infância?

Meus pais ouviam MPB, internacional romântico e sertanejo raiz. Confesso que não me atraía. Gostava mais do pop rock (Skank, Jota Quest), rock (Legião, Engenheiros, Paralamas, Titãs, RPM, Biquini Cavadão, Kid Abelha, Lulu Santos, Barão Vermelho, Capital Inicial, Bon Jovi). Mas nunca tive preconceitos: ia a shows sertanejos, pagode... Sempre bem eclética, né?!

MEDIOPIRA - Como é que foi o seu namoro com as letras, com o jornalismo?

Como disse, o Jornalismo veio para mim como uma questão de oportunidade, mas sempre gostei muito de escrever, por isso essa paixão foi aflorada durante a faculdade. Venho de uma família de 4 irmãos, sendo que cada um tem aptidão por uma área distinta. Um é de exatas, outro de ciências naturais, a caçula é médica e eu de humanas. Fiz normal (magistério) no segundo grau e, recentemente, me despertou o desejo de cursar uma licenciatura. Não por acaso, escolhi Letras e Literatura.

MEDIOPIRA - A Fundação Cultural mantém hoje diversas atividades, principalmente na transmissão de conhecimentos. Quais os principais cursos são oferecidos pela fundação hoje?

Atualmente, a Casa de Cultura oferece 8 oficinas – pintura em tela, pintura em tecido, artesanato, dança de salão, canto, violão, bateria e piano, atendendo mais de 700 alunos. As aulas ocorrem de fevereiro a novembro e culminam com uma grande Mostra de Talentos, onde parte destes alunos têm a oportunidade de apresentar para a comunidade um pouco de que aprenderam e/ou aperfeiçoaram durante o ano. Interessante ressaltar que a cada ano mais pessoas procuram pelas nossa oficinas. Às vezes, saem de escolas particulares e optam pela Fundação porque confiam e sabem da seriedade do nosso trabalho. Então temos alunos de todas as idades (a partir de 8, até quase 90 anos) e classes sociais, o que é uma grande ganho nas nossas atividades. Recebemos também pessoas com necessidades especiais (motoras, auditivas, visuais...), além de um grande número de pacientes acometidos por transtornos mentais (leves e moderados), que nos procuram voluntariamente ou encaminhados por clínicas e profissionais da cidade. Isso nos confere uma grande responsabilidade, mas também uma enorme satisfação. Quaisquer que sejam as motivações que levam as pessoas a nos procurar, é sempre uma alegria enorme acompanhar a evolução artística, cultural e pessoal dos nossos alunos. A Casa de Cultura é privilegiada por ter um corpo profissional comprometido e dedicado às nossas demandas. Isso nos possibilita atender a tanta gente, com qualidade.

MEDIOPIRA - Vocês conseguem identificar talentos promissores na nova geração que está estudando artes na fundação?

Muitos e em todas as faixas etárias. Como disse acima, vários são os motivos que fazem com que as pessoas procurem a Casa de Cultura. Algumas vêm, por exemplo, buscar socialização nos cursos de pintura e artesanato e acabam encontrando uma fonte de renda. A dança como forma de buscar mobilidade, equilíbrio, fortalecimento da musculatura e descobrem-se grandes dançarinos que participam de concursos na cidade. Nas oficinas de música, vêm buscando aprender um instrumento para tocar na igreja ou mesmo para lazer e se juntam a outros alunos daqui e formam bandas, aprendem a cantar, buscam aprender outros instrumentos... Como disse, somos coroados, minha equipe e eu, com grandes surpresas e ficamos lisonjeados com os talentos que daqui saem. E agradecemos à Administração Municipal, em nome da Prefeita Simone Carvalho, por confiar no trabalho que e nos apoiar em nossos projetos.

MEDIOPIRA - Quais os principais eventos promovidos pela Fundação atualmente?

Não vamos focar em eventos, mas em atividades, senão fica aquela eterna impressão de que a Fundação Casa de Cultura é uma promotora de shows e esse não é o nosso foco principal. Temos excelentes casas de shows e produtores de eventos em nossa cidade e na nossa região que cumprem este papel de entretenimento. Além das atividades da escola de artes, promovemos e apoiamos atividades culturais durante todo o ano, que sejam do próprio município (de outras secretarias) ou da comunidade em geral. Dos últimos anos até o presente momento, podemos citar participação, entre apoios e realizações, apresentações de danças e musicais, festivais gastronômicos, cavalgadas, carnaval do bloco Sapeca Iaiá, eventos esportivos, educacionais, sociais, ambientais, de saúde, desfile de 7 de setembro, dia da mulher, aniversário da cidade, bicentenário da chegada do Jean Monlevade ao Brasil, ruas de lazer, Mostra de Talentos, encontro de motociclistas, Festival de Inverno da UFOP, dentre outros). Também temos um trabalho pouco conhecido, mas muito importante, que é o desenvolvimento das políticas públicas voltadas para a preservação do patrimônio cultural de João Monlevade, que engloba atividades como a Jornada do Patrimônio, educação patrimonial nas comunidades e nas escolas, apoio às entidades culturais da cidade e proteção dos bens tombados, registrados e inventariados no município.

MEDIOPIRA - O que os artistas precisam fazer para serem contratados e participarem dos eventos promovidos pela fundação?

Precisam se apresentar a nós, dizer que existem, que estão no mercado e que têm interesse em se apresentar. Durante 4 anos, a Fundação Casa de Cultura integrou o Núcleo Cultural Vieira Servas, instituído pela UFMG e pela AMEPI, que contava com a participação de diversos municípios da região com o intuito de fortalecer a cultura regional. Durante este período, surgiu uma ideia de se catalogar os artistas das cidades que integravam o projeto, a fim de se montar um banco de dados para promoção e divulgação destes artistas. Para a nossa surpresa, a adesão foi baixíssima, em todas as cidades. Em João Monlevade apenas 2 se dirigiram à Fundação para deixar material. Trabalhar para o serviço público é burocrático, às vezes trabalhoso e oneroso, pois requer a juntada de documentos, recolhimento de impostos e isso, por vezes, afasta alguns possíveis prestadores de serviços.

MEDIOPIRA - Como você analisa o cenário da música hoje? Seu gosto é mais popular ou refinado? Mais pra funk, sertanejo e pagode ou MPB, jazz e rock? Ou gosta de tudo um pouco?

Gosto de tudo um pouco. Tenho adolescente em casa e minhas filhas são loucas por música. Acabo ouvindo muito o que elas ouvem, as modinhas do momento. Elas se surpreendem quando me ouvem cantando alguma música que gostam, mas que, na verdade, são “da minha época”, com uma nova roupagem dada por algum cantor ou banda atual. Tento dar uma polida no que ouvem, porque temos algumas coisas inapropriadas, mas no geral temos a liberdade de ouvir de tudo em casa. Particularmente, gosto de MPB.

MEDIOPIRA - Monlevade tem muitas casas de shows, que contratam artistas locais e da região, mas todos só cantando músicas de artistas consagrados (covers). Não acha que faltam eventos para incentivar os artistas autorais?

Acho essa questão um pouco mais complexa. O brasileiro tem por hábito valorizar o que vem de fora. Pagam-se absurdos para assistir apresentações de artistas internacionais e reclamam do preço cobrado em bilheterias de shows nacionais. A nossa cultura é pouco valorizada internamente e essa realidade bate à porta das cidades de menor porte. Lembro-me de uma colega de uma cidade da região contar que a dupla Victor e Leo era aparentada de um padre daquela paróquia e, antes da fama, se apresentavam em todas as quermesses e promoções da igreja. O povo já não podia ouvir falar em Victor e Leo. Hoje, ficam apertando a Prefeitura para levar a dupla à cidade... Então, creio que essa será sempre uma situação complicada enquanto não se educar os hábitos do brasileiros em valorizar o que é da sua terra. Os artistas precisam levar público às suas apresentações, pois vivem disso, e acabam se submetendo ao mercado de covers.

MEDIOPIRA - Existem projetos legais pra sair que possa antecipar pra gente?

Muitos. Infelizmente freados pela crise econômica. Mas temos uma novidade para as próximas semana: o lançamento de um concurso que elegerá a música em comemoração ao bicentenário da chegada de Jean Monlevade ao Brasil.

MEDIOPIRA - Ultimamente bons conteúdos foram lançados sobre a história do fundador Jean Monlevade. Algumas solenidades aconteceram e um selo comemorativo foi lançado sobre 200 anos da chegada de Monlevade ao Brasil. Mas ainda assim achei que a repercussão foi pequena. Parece que a cidade não deu tanta bola assim. Também foi essa a sua impressão?

Em parceria com a Câmara Municipal e alguns ativistas e pesquisadores da comunidade, ocorreram alguns projetos e atividades alusivos à data. Os mais visíveis foram o lançamento do selo e o projeto de Educação Patrimonial que ocorreu em cerca de 10 escolas da cidade (aquelas que aderiam ao projeto). Para este ano, como encerramento, está previsto para o dia 14 de maio uma solenidade na Câmara Municipal e ainda o concurso citado na pergunta anterior. Sabemos que a ArcelorMittal também prepara para este ano um calendário de comemoração à data.

MEDIOPIRA - Existe alguma perspectiva da criação de um Lei Municipal de Incentivo à Cultura?

Sim, há conversas caminhando para esta possibilidade, mas ainda não temos previsão.

MEDIOPIRA - Qual seu grande sonho, seu grande projeto nessa sua gestão frente a Fundação Casa de Cultura de João Monlevade?

São muitos projetos que eu gostaria que saíssem do papel. A construção de um Centro Cultural como a cidade precisa e merece talvez seja o maior deles. Agora, falando de cultura como um todo, creio que a fixação de orçamento mínimo em favor da cultura, em âmbito nacional, seria um enorme ganho para a área.

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